Dermatite Atópica | Bioderma Portugal

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21 Fevereiro 2017

Drª. Maria João Silva, Dermatologista

Dermatite Atópica

A Dermatite Atópica, também denominada Eczema atópico, é uma doença inflamatória crónica da pele que tem habitualmente início na infância.

Dra. Maria João Silva

 

dermatite atópica

dra. Maria João Silva, Dermatologista


Os termos eczema e dermatite são utilizados muitas vezes como sinónimos embora, em rigor, dermatite designe qualquer fenómeno inflamatório da pele enquanto o eczema corresponde a um padrão particular de reacção inflamatória da pele.

O termo atopia utiliza-se atualmente para designar uma hiperreatividade a múltiplos fatores ambientais. Enquanto que no individuo não atópico o sistema imunitário não reage contra os constituintes habituais do ambiente (poeiras, pólens, pelos de animais,etc) no doente atópico há a tendência para reagir fortemente contra estes elementos naturais do ambiente humano, o que na pele se traduz pelo aparecimento da dermatite atópica. Em cerca de 80% dos casos, nos doentes ou nos familiares, às manifestações de eczema associam-se asma e/ou rinite alérgica. À tendência familiar para sofrer destas afeções chama-se atopia. A prevalência da dermatite atópica aumentou muito nas últimas décadas, calculando-se que atualmente afete cerca de 10 a 20% da população pediátrica sobretudo em países industrializados e em meio urbano, o mesmo acontecendo com a asma o que sugere a existência de fatores desencadeantes que podem ser partilhados. Em Portugal estima-se que cerca de 10% das crianças sejam atingidas pela doença e em cerca de 80% dos casos os sintomas iniciam-se no primeiro ano de vida. É uma das dermatoses mais frequentes na infância e uma das patologias mais comuns numa consulta de dermatologia pediátrica.

Etiopatogenese

A etiopatogenese é complexa sendo evidente a existência de um importante componente hereditário. O desenvolvimento do eczema resulta de fenómenos de reatividade imunitária em que pode haver sensibilização a alergenos e outros factores irritativos externos associados a uma menor eficácia da barreira cutânea, característica destes doentes.

A função de barreira diminuída na pele atópica leva a um aumento da perda de água transepidérmica e a um aumento da penetração de substâncias estranhas, irritantes e microorganismos.

Fatores desencadeantes

AMBIENTAIS - A maioria dos doentes agrava no inverno com o frio e também com a secura do ar provocada pelos aquecimentos, havendo no entanto alguns pacientes cuja situação clínica piora no verão provávelmente pela indução do prurido provocado pela sudorese. A poluição do ar está também relacionada com o aumento da incidência da dermatite atópica.

IRRITANTES - Como sabões, produtos de banho mais concentrados, desinfectantes, banhos quentes e prolongados. A saliva nas crianças mais pequenas pode induzir uma irritação perioral. A utilização de fibras e lãs no vestuário exacerbam o prurido e são fatores de agravamento.

Manifestações clínicas

O prurido é o sintoma principal determinado pela xerose cutânea, característica desta patologia.

Há três estadios classicamente descritos: a fase do lactente, a fase da infância e a fase da adolescência.
A doença inicia-se cedo, no primeiro ano de vida em cerca de 80% dos casos, por volta dos 3 meses.As primeiras lesões são habitualmente na face, pruriginosas e muitas vezes exsudativas.
A criança está inquieta, agitada e dorme mal. As lesões podem estender-se por toda a pele mas a área das fraldas é, em geral, poupada devido à retenção de humidade pela fralda.
Quando a criança começa a movimentar-se o eczema tem tendência a acantonar-se mais localizando-se tipicamente nas pregas dos braços (sangradouros) e nas regiões popliteias, mas também no pescoço, cotovelos, punhos e tornozelos. Nesta altura a pele tem um aspeto mais espessado, seco e descamativo.
A doença pode melhorar com o crescimento mas pode também persistir, evoluindo por surtos. Por vezes surgem outras doenças atópicas como a asma ou a rinite alérgica.

Em geral a dermite atópica melhora durante a idade escolar e pode desaparecer por completo na adolescência mas a função barreira da pele nunca se recupera totalmente.

Manifestações associadas à dermatite atópica

A dermatite atópica acompanha-se de determinadas características cutâneas designadas estigmas de atopia como a xerose cutânea, a mais comum e sempre presente, a queratose pilar que ocorre em cerca de 50% dos doentes atópicos, caracterizada por pápulas foliculares assintomáticas na face, braços e coxas, mais frequente na infância, a pitiríase alba, alteração típica das crianças entre os 6 eos 12 anos que consiste em áreas arredondadas, hipopigmentadas, finamente descamativas, sobretudo na face e membros superiores,notando-se mais no verão quando a pele circundante bronzeia.

Outros sinais de atopia são ainda: hiperlinearidade palmoplantar, a dupla prega palpebral, visível na pálpebra inferior e que está presente em cerca de 70% dos doentes atópicos, a queilite, o eczema dos mamilos em adolescentes do sexo feminino, entre outros.

Diagnóstico

O diagnóstico é essencialmente clínico e assenta sobretudo na morfologia e distribuição das lesões e sinais clínicos associados. Na história pessoal e familiar verifica-se em mais de 80% dos casos a existência de antecedentes de atopia. O papel dos alérgenos respiratórios e dos alimentos no desencadear do eczema atópico é ainda hoje controverso.

Complicações da dermatite atópica

 Há uma série de complicações associadas à evolução da doença.

INFEÇÃO BACTERIANA - Muitos estudos têm demonstrado uma colonização aumentada de estafilococos aureus na pele do atópico e esta densidade aumenta em pele lesada (90% dos doentes). Nas crianças a infeção bacteriana secundária apresenta-se habitualmente como lesões exsudativas e crostas amareladas. Este aspeto é indicação para antibioterapia sistémica.

INFEÇÕES VIRAIS - O herpes simples pode disseminar-se em doentes com dermatite atópica (eczema herpeticum). Em bébés pequenos ou imunodeprimidos pode haver o risco de infecção sistémica grave.
As verrugas vulgares e o molusco contagioso podem disseminar-se facilmente em crianças com prurido intenso que se coçam persistentemente, bem como as infecções fúngicas.

DERMATITE DE CONTACTO IRRITATIVA - É uma complicação frequente devido à alteração da função barreira do estrato córneo que torna a pele mais vulnerável a agentes irritantes.

Tratamento

O primeiro passo no controle da dermatite atópica é a educação e sensibilização dos pais em relação à natureza crónica da afeção. A doença tem a sua evolução própria e o médico muitas vezes pode apenas moderar e aliviar a sua evolução.

O tratamento assenta em 3 pilares fundamentais.

1/ EVIÇÃO DE FATORES IRRITANTES E DESENCADEANTES

Cada um deve tentar perceber e aprender a conhecer o que em determinadacriança pode contribuir mais para o desencadear das crises.

É importante adotar medidas que protejam e hidratem a pele.

O banho deve ser curto (de preferência duche e com água morna).

Evitar água demasiado quente e sabões irritantes ou muito concentrados.

Evitar esfregar vigorosamente  a criança. Secar com uma toalha macia e aplicar o emoliente com a pele ainda ligeiramente húmida.

As roupas que contactam directamente com a pele devem ser de algodão inclusivé os lençois que devem ser bem enxaguados de modo a remover todos os restos de detergente.

O sobreaquecimento da pele deve também ser evitado como o uso excessivo de roupa ou cobertores  na cama uma vez que tende a agravar o prurido.

As unhas devem estar sempre bem cortadas  para evitar escoriações ou infecção secundária de lesões de coceira.

2/ HIDRATAÇÃO ADEQUADA E CONTINUADA DA PELE

A hidratação é um fator essencial na prevenção e controle da dermatite atópica. O seu objectivo principal é o de restabelecer a barreira cutânea, evitando a perda exagerada de água transepidérmica. Devem escolher-se produtos emolientes hipoalergénicos e espalhar o produto suavemente em camada fina para evitar a oclusão da pele lesionada o que agrava o prurido e pode favorecer a infecção secundária.

3/ CONTROLE DA INFLAMAÇÃO E PRURIDO COM MEDICAMENTOS

Corticósteroides

São os fármacos mais utilizados para o tratamento das crises, reduzem a inflamação e o prurido.
O seu uso em crianças requer no entanto cuidados especiais.

São divididos em grupos de acordo com a potência.
A escolha do corticóide a utilizar depende do local a tratar, da idade do doente e da gravidade e extensão das lesões.

Na face e em crianças pequenas  recomenda-se a utilização de corticóides de baixa potência como a hidrocortisona o que minimiza o aparecimento de efeitos secundários que surgem por vezes quando se utilizam corticóides mais potentes por períodos prolongados.

Inibidores da calcineurina

O Tacrolimus e o pimecrolimus são imunomoduladores tópicos que constituem uma boa alternativa à corticoterapia para o tratamento da dermatite atópica.

Anti-histamínicos orais

Em associação com as terapêuticas tópicas são recomendados para alívio do prurido e o efeito sedativo de alguns deles permite que a criança tenha um sono mais descansado minimizando o agravamento das lesões pela coceira no período noturno.
A maioria dos casos de dermatite atópica é bem controlada com medicação tópica mas em casos mais graves pode ser necessário recorrer a outros fármacos imunomoduladores sistémicos como os corticóides orais ou a azatioprina entre outros.

Artigo da autoria da Dra. Maria João Silva (Dermatologista).